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Lemos 258 clássicos atrás de machismo

Um estudo do Literatok, outubro de 2026

Abrimos de novo um por um os poemas, contos e crônicas brasileiros do Literatok e lemos até a última linha, desta vez atrás de machismo e de misoginia. 93 textos tocam no assunto. Quase metade só retrata os costumes da época. Em 42, o machismo está na voz do narrador, na moral da história ou na piada.

258textos lidos inteiros
93tocam no assunto
42com machismo do próprio texto
9denunciam o machismo

A régua

duas perguntas para cada texto

Falar de machismo e ser machista são coisas diferentes. Em Os matadores de mulheres, Lima Barreto escreve sobre homens que matam a esposa e responde: “A mulher não é propriedade nossa”. Por isso cada texto recebeu duas marcas, como no estudo sobre racismo.

Amor, desejo e beleza cantados num poema ficaram de fora. A marca entra quando a mulher vira coisa, propriedade ou culpada.

Nota: quanto de machismo aparece.


    Postura: o que o texto faz com isso.

      Os 258 textos, um quadrado cada

        Quase dois em cada três textos não têm nada de gênero relevante. Dos 93 que têm, 26 assumem o machismo e 16 criticam num plano e repetem o estereótipo em outro.

        Nota 4 aparece dos dois lados

        os 93 textos por nota e postura

          São 9 textos com nota 4. Quatro denunciam: três falam de homens que matam ou querem matar a mulher, e o quarto, de Carmen Dolores, mostra uma mãe que se recusa a sumir dentro da família. Outros quatro endossam. Um soneto culpa as mulheres pela maldade do poeta. Outro poema aconselha a moça a ser bonita e resignada.

          De que jeito

          os 42 textos com machismo do próprio texto

            Os sete tipos aparecem quase por igual. A mulher culpada pela queda do homem vem um pouco à frente, em 8 textos. Logo atrás estão a violência contada como piada ou castigo e a mulher reduzida a corpo.

            Mais nos contos que nos poemas

            quanto de cada gênero tem marca

            Dois em cada três contos tocam no assunto. Nos poemas, menos de um em cinco. Conto e crônica têm mulheres com nome, casamento, vizinhos e destino, e o machismo aparece no que acontece com elas. O poema de amor do acervo quase sempre só canta a amada, e isso ficou fora da conta.

            Por autor

            quem tem quatro ou mais textos marcados

              Machado aparece mais porque escreve muito sobre casamento, e nenhum texto dele endossa: seis retratam, dois escorregam e dois denunciam, como A causa secreta. Nos contos e crônicas de João do Rio sobre o Rio de 1900, a mulher aparece como vaidosa ou como presa, e em quatro dos nove isso está na voz do próprio texto.

              E as autoras?

              28 dos 258 textos são de mulheres

                As seis autoras do acervo assinam 28 textos. A parte com machismo do próprio texto é quase igual à dos homens: 5 de 28, contra 37 de 230.

                Júlia Lopes de Almeida responde por esses cinco. Na mesma crônica em que defende as médicas, engenheiras e advogadas, ela cobra delas roupa de mulher. Em outras, prega o recato das moças e repete o dito de que “um homem tudo perdoa, menos um mau jantar”. Ela ajudou a planejar a Academia Brasileira de Letras, em 1897, e ficou de fora por ser mulher. A cadeira foi para o marido, Filinto de Almeida.

                A denúncia mais inteira do acervo também é de uma mulher: Lição póstuma, de Carmen Dolores.

                Oito exemplos

                Trechos copiados do texto como está no acervo, com a grafia da época.

                O que a leitura mostrou

                1. Quanto mais enredo, mais machismo. Dois em cada três contos tocam no assunto, contra menos de um em cinco poemas. Onde a mulher tem casamento, vizinhos e destino, aparece a regra que ela devia seguir.

                2. A violência contra a mulher aparece dos dois lados. Lima Barreto e Alcântara Machado atacam o homem que mata “por amor”. Olavo Bilac conta como piada a sedução de uma moça de 17 anos, e Monteiro Lobato faz o mesmo com a agressão a uma dona de casa.

                3. O mesmo autor cai dos dois lados. Lima Barreto, que escreveu “a mulher não é propriedade nossa”, descreve em outro conto uma esposa “como todas as mulheres, de fraca curiosidade intelectual”.

                4. Quando a mulher é negra, os dois preconceitos se somam: os quadris da “mulata bem fornida”, as mulatas que “ganham beliscões” na arquibancada, os sobrinhos que andavam “ao faro das escravas”. Oito textos têm preconceito do próprio texto nos dois estudos, o de racismo e este.

                5. Ser mulher não livrou ninguém da regra da época. A autora com mais textos no acervo defende o trabalho das mulheres e, nos mesmos textos, repete o estereótipo em cinco de dez.

                Por que esses textos continuam lá

                Tirar Vulnus ou A costura do acervo apagaria a prova de como se escrevia sobre mulheres quando elas ainda não votavam. O voto feminino no Brasil é de 1932. Por isso todo clássico do Literatok abre com um aviso:

                “Este texto foi escrito em outro tempo e pode trazer ideias, palavras e preconceitos daquela época ou de quem o escreveu. Elas não representam a equipe do Literatok, que não endossa nem compactua com essas visões.”

                Este estudo completa o aviso. Ele diz onde está o machismo, de que tipo é e quem escreveu.


                Como foi feito

                Cada um dos 258 textos foi lido inteiro por um modelo de inteligência artificial, com a régua acima, e recebeu nota, postura, tipo de machismo e o trecho mais grave. Os 93 trechos foram conferidos contra o original. Parte das notas mais altas foi relida, e duas baixaram.

                As notas são julgamento de quem leu. Outra leitura pode mudar um texto de lugar, principalmente quando há ironia. O acervo só tem obras em domínio público, e quase todas são de homens. O estudo cobre do século XVII à primeira metade do XX e não mede a literatura brasileira inteira.


                Ver os 93 textos
                TextoNotaPostura

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                literatok.com.br

                O Literatok é um varal de folhetos de cordel no celular. Poemas, contos e crônicas de domínio público, um por tela: você desliza para cima e chega o próximo. Dá para ouvir narrado, guardar e mandar para alguém.

                Os 93 textos deste estudo estão lá inteiros, com o aviso de contexto. Leia e tire a sua conclusão.

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                Estudo feito em outubro de 2026 sobre o acervo brasileiro do Literatok. Leia também Racismo nos clássicos.